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Imagine o seguinte cenário: a pessoa acorda de manhã, vai tomar café e, antes mesmo de chegar aoescritório para mais um dia de trabalho, já olhou todos os e-mails que foram enviados entre 10h danoite, quando foi dormir, e 8h da manhã. Nesse meio tempo, teve todo o tipo de emoção e pensamento desde bons, com as respostas positivas de clientes ou chefes; ou aqueles mais terríveis, com reclamações ou problemas urgentes no trabalho.


Antes mesmo de chegar ao escritório, essa mesma pessoa já tem montadas todas as árvores de decisão e seus resultados, os quais também geram emoções de todo o tipo. Isso quando não se tenta resolver tudo durante o trajeto ao trabalho. Para quem trabalha com resultados e em mercados
dinâmicos, essa é uma realidade bastante comum e que, em pouco tempo, faz com que fiquemos viciados na ilusão de que estamos conseguindo de fato resolver todos os nossos problemas da maneira mais eficiente possível. Quando, na verdade, estamos treinando nossa mente a dar respostas rápidas sem antes analisar suas consequências, sem estarmos presentes no momento em que uma determinada ação precisa ser tomada e vivendo em uma montanha-russa de emoções, agindo em função delas sem que haja um momento de quietude interna sequer.


Ao expandirmos esse cenário para as empresas, podemos perceber o imenso impacto de agir simplesmente em função do resultado e crescimento, sem pensar no depois, ou naquilo que este grupo de pessoas está deixando para si próprio, para a sociedade e o meio ambiente. Essa busca frenética, veloz e sem consciência fez com que começássemos a experimentar graves mudanças climáticas, problemas de escassez de recursos naturais, os quais ajudam a acarretar problemas sociais e pessoais. É um ciclo interminável de eventos de causa e consequência ligados intimamente entre si, pelos quais somos responsáveis 24 horas por dia.


Mas nem tudo é ruim ou negativo, todos esses eventos têm nos ajudado a acordar para o fato de que temos de começar a pensar de uma forma diferente, que nossos atos, por menores que sejam, podem ajudar a mudar o mundo e a definir o nosso futuro. Esse “acordar” vem em forma de hábitos e atitudes que devemos desenvolver a fim de nos tornarmos agentes da mudança, ou melhor, líderes conscientes.


Primeiramente, um líder consciente deve ter como hábito alguma prática diária de meditação ou “mindfulness”, palavra da onda no mercado empresarial americano e que podemos traduzir para o português como “atenção plena”. Esse tipo de prática nos ajuda a treinar a nossa mente a permanecer estável e a não se deixar levar por nossos próprios pensamentos ou emoções que turvam a nossa visão da realidade.


Empresas como o Google desenvolveram programas próprios de atenção plena, um bastante famoso entre os funcionários desta empresa é o “search inside yourself”, que visa ensinar elementos centraisdo treino de atenção, do desenvolvimento do autoconhecimento e autodomínio e também a criar hábitos mentais úteis. O assunto é tão sério que várias pesquisas no campo médico vêm sendo feitas a fim de demonstrar os resultados positivos desse tipo de prática.


Esse mesmo líder consciente, ao desenvolver e manter uma mente mais estável, passa a agir e pensar de uma forma mais genuína, pois a clareza da mente estável permite que ele saiba o que aceitar e o que rejeitar, de maneira que a influência gerada por sentimentos, como medo ou vergonha, passa a não mais fazer tanto efeito. Isso porque ele consegue enxergar com clareza o propósito maior por trás de seus atos e dos de outras pessoas ou empresas, agindo com integridade. Ele entende que benefícios reais só existirão se agir em prol do grupo mais do que em favor de si mesmo.


Além disso, o aumento da estabilidade mental traz uma maior aceitação da situação como ela é. Essa característica pessoal melhora a tomada de decisão e torna os líderes menos reativos e mais responsáveis. Torna-se possível desativar com mais rapidez as armadilhas das reações emocionais,
como raiva, negação e frustração, e, em seguida, fazer escolhas racionais de um lugar mais calmo.


Muitas vezes, as pessoas reagem por meio de suas crenças e condicionamentos, estão acostumadas a projetar suas emoções em uma situação, resultando em más escolhas com consequências desastrosas. Ao desenvolver a mente estável, nossas reações e projeções vão se tornar menos dominantes.


Todos esses aspectos fazem com que o líder consciente seja, antes de tudo, uma pessoa aberta que consiga dar um passo além das fronteiras daquilo que lhe é familiar e rotineiro e possa tocar as pessoas e o ambiente que deseja inspirar. Instintivamente, todos os seres humanos querem oferecer
o que têm de melhor aos outros e, por consequência, inspirar os outros a fazer o mesmo.


Para aqueles que querem buscar o autodesenvolvimento nessa direção, digo que é difícil falar que exista um treino genérico recomendado e que permita desenvolver-se desta maneira, mas algumas dicas podem ser passadas. É interessante buscar algum lugar para aprender e praticar a meditação sentada. E não precisa ser nada ligado à religião ou prática espiritual. Mas é importante receber a instrução de outra pessoa e não de algum livro ou vídeo na internet. Além disso, sincronizar corpo e mente por meio de atividades, como dança, artes marciais ou yoga, é uma forma complementar à prática de meditação no treino da atenção plena.


A sociedade como um todo está carente desse tipo de pessoa, necessitamos urgentemente demudanças drásticas para que possamos continuar prosperando. E essas mudanças não podem ser efetivas se feitas superficialmente, ou seja, apenas mudando sistemas governamentais ou mesmo trocando partidos. Essa mudança começa na forma de pensar mais enquanto sociedade e menos emnós mesmos e no nosso próprio umbigo.


*Sobre o autor
Administrador formado pela Fundação Getulio Vargas, sócio fundador e CFO da HIVE S.A., empresa com representativa atuação no setor de marketing digital. Instrutor de meditação por ShambhalaInternacional, instituição norte-americana com mais de 200 centros de meditação pelo mundo.